Para quê dormir?

Para quê dormir?

ESCRITO A 7 De Julho de 2012:

"Para quê dormir?

Estou de visita. Dois dias, é o tempo que me demoro na cidade maravilhosa.

Para quê dormir?

Hoje vamos tingir a pele com promessas.Tenho o cabelo ondulado de tanto suar a sambar, e a maquilhagem desbotada das lágrimas que derramei. Chorámos de tanto rir, e de tanto temer.

Para quê dormir?

O sol está prestes a nascer por detrás do morro. A praia ainda está deserta. Não tarda chegarão os vendedores. Ah, o que eu não dava por um pastel de frango com catupiry.

Para quê dormir?

Vamos tomar o café da manhã, diz ela. Pequeno-almoço, corrijo. Ela já não é Portuguesa, é do mundo. Ganhou este jeito livre de viver. E nisto, despe o vestido cor-de-rosa bebé, a sua cor preferida, joga-o na areia e corre até ao mar. Os seus cabelos loiros balançam de um lado para o outro, soltos, tão livres quanto ela. Corre com a impulsividade que se lhe instalou na alma, em sincronia com a sua vontade. Já do oceano acena na minha direcção e grita: VEM! Eu, presa em mim, movimento o meu indicador para a esquerda e para a direita como quem nega o convite. Insatisfeita, corre de novo na minha direcção. Qualquer maquilhagem ou preocupação que restasse escorre-lhe pela pele e os seus cabelos molhados estão agora presos ao rosto. Traz o mesmo sorriso estampado no rosto e os braços abertos para me abraçar. Fujo, evitando molhar-me. Como que contagiada pela sua meninice, dou por mim a correr para o oceano também.

Tem sido sempre assim a vida inteira. Eu a resistir e ela a desafiar. Eu a cumprir e ela a infringir. Eu a rejeitar e ela a convencer. Eu controlar e ela a soltar. Eu a questionar e ela a afirmar.

Para quê dormir?

-Vamos tatuar a pele!

-Vamos! Respondo, desta vez, sem questionar."

Written on the 7th of July of 2012

"Why sleep?

I'm only visiting. Two days, that's how long I'm staying in Rio, “the wonderful city” as they call it here.

Why sleep?

My hair is wavy from all the sweat released from dancing, and my make up has faded from all the tears that we shed. We've cried with so much laughter, and so much fear. Why sleep?

The sun is about to rise behind the hill. The beach is still deserted. The sellers will soon arrive. Oh, the things I would for a chicken pastel with catupiry right now...

Why sleep?

Let's have “café da manhã” (how the brasilians say breakfast), she says. "Pequeno almoço", I correct. She is no longer Portuguese, she is of the world. She's gained this free way of living... While I'm still in the middle of this thought, she strips off the pink baby dress, her favourite colour, throws it in the sand and runs to the sea. Her blonde hair sways from side to side, loose, as free as she. She runs with impulsiveness installed in her soul, in synchrony with her will. Already from the ocean she waves in my direction and shouts: COME! I, stuck in myself, move my finger to the left and right, denying the invitation. Unsatisfied, she runs towards me again, what remains of her make-up and worries runs down her skin, and her now wet hair is stuck to the cheeks. She brings that same smile on her face and her arms open to hug me. I flee, avoiding getting wet.

As if infected by her childishness, I find myself running into the ocean too. It has always been this way my whole life, I resist and she challenges. I comply and she infringes. I reject and she persuades. I control and she lets go. I question and she affirms.


Why sleep?


- Let's get a tattoo
- Yes, let's get a tattoo! I say, for the first time, without questioning."


 ue

Eu bem sei que o texto anterior nada que tem que ver com as fotografias que o seguem. Mas como a Filipa faz anos, achei que este seria o dia ideal para o partilhar convosco e com ela, uma vez que, até então, nunca lho tinha mostrado. Actualmente, vemo-nos mais através dos ecrãs dos nossos telefones do que propriamente ao vivo. Como vos disse no texto anterior, a Filipa é do mundo, passa a vida a mudar de país, já viveu na China, nas Filipinas, na Indonésia, na Coreia e agora em Itália. Para meu espanto a Filipa decidiu (impulsivamente como de costume) visitar-me no passado fim de semana. E, como sempre, assim que nos vimos foi como se não se tivesse passado tempo nenhum desde a última vez em que nos encontramos. Foram dois dias muito divertidos, passeámos por Notting Hill, visitámos a Tita, dançámos a noite inteira e no dia seguinte fomos ao mercado das flores. A nossa amiga Tita é uma viajante como nós, depois de nove anos em Londres vai regressar a casa, Moçambique. Na verdade o meu grupo de amigas mais próximas é composto na íntegra por gente da mesma espécie, gente de raizes soltas...

I know that what I wrote above has nothing to do with the photographs that follow it. But, as today is Filipa's birthday, I thought this would be the ideal date to share it with you guys and also with her since I have never shown her this piece of writing . Nowadays, we see each other more through the screens of our phones than in real life. As I told you previously, Filipa is from the world, she spends her life moving around the globe, she has lived in China, in the Philippines, Indonesia, Korea and now in Italy. To my amazement Filipa decided (impulsively as usual) to visit me last weekend. And, as always, as soon as we saw each other it was as if no time had passed since the last time we met. We had a very fun two days, we strolled around Notting Hill, visited Tita, danced all night, and the next day we went to the flower market. Our friend Tita is a traveller like us, after nine years in London she is returning home, Mozambique. In fact my group of closest friends is composed entirely by people of the same species, people with loose roots ...



Parabéns Fi, sou uma sortuda por te ter na minha vida! 

Happy Bday Fi, I feel the luckiest girl in the world for having you in my life! 

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