Catarina MiraComment

Saudade

Catarina MiraComment
Saudade

Hoje ao telefone:

EU (London, 10:15am GMT): - Saudades...

ELE (LA, 02:15am PST): - What does 'saudades' mean?

 

'Saudade' é:

A cidade que fica para lá do vidro embaciado embrulhada em nuvens e lágrimas de vazio.

O taxi até ao aeroporto.

O teu reflexo na janela molhada.

O chuveiro ainda húmido com vestígios de ti.

O perfume da almofada que fica do teu lado.

A nossa cama vazia.

O teu casaco que me defende da chuva obliqua e áspera.

A chuva que sem ti é só… chuva. 

O bolso que guarda o último bilhete de cinema.

As mangas compridas que cobrem as mãos da invernia e lembram o comprimento dos teus braços.

A ausências das paredes do teu abraço.

A minha palma sem sinais do teu toque.

Os meu dedos que temem o frio sem o entrelaçar dos teus.

As ruas cheias de gente e vazias de ti.

A cidade embalada em música nossa.

A mesa posta só para mim.

O eco do silêncio.

A fotografia com o nosso amor eternizado em papel.

A casa arrumada.

A cama feita.

As luzes apagadas.

As pétalas pálidas das flores que murcham esperando o teu regresso.

O bilhete que espreita pelo envelope onde a tua letra imprime o amor que as palavras permitem.

As palavras que são tuas mas não têm voz.

O nosso cão que se apressa até à porta sempre que algum ruído interrompe o silêncio ensurdecedor da tua ausência.

A sua cauda que dança em uníssono com os ponteiros do relógio durante escassos segundos na esperança de te ver chegar.

O amor mudo.

O beijo intangível.

A fome de ti.

A fome de nós.

Os dias atrasados.

O tempo que engole a pressa.

O divórcio dos corpos.

A vida sem par...


TODAY ON THE PHONE:

ME (London, 10:15am GMT): - Saudades...

HIM (LA, 02:15am PST): - What does 'saudades' mean?

 

'Saudade' is:

The city beyond the fogged glass wrapped in clouds and tears of emptiness.

The Taxi to the airport.

Your reflection on the wet window.

The shower still damp with traces of you.

The perfume of your cushion.

Our bed. Empty.

Your coat protecting me from the oblique and rough rain.

The rain that, without you, is just ... rain.

The pocket that holds the last movie ticket.

The long sleeves that cover my hands from the cold winter and remember the length of your arms.

The absence of the walls of your hug.

My palm without signs of your touch.

My fingers that fear the cold without the interweaving of yours.

The streets full of people and empty of you.

The city lulled into our music.

The table set for one.

The echo of silence.

The photograph where our love is eternalized in paper.

The house. Tidy.

The bed. Made.

The lights. Out.

The pale petals of the flowers that wither away waiting for your return.

The note that lurks in the envelope where your handwriting prints the love that words allow.

Words that are yours but have no voice.

Our dog rushing to the door whenever some noise interrupts the deafening silence of your absence.

His tail dancing in unison with the clock for a few seconds hoping to seeing you arrive.

The mute love.

The intangible kiss.

The hunger for you.

The hunger of us.

The days overdue.

The time that swallows the haste.

The divorce of bodies.

Life without pair...

 

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