The Presidential, a trip I'll never forget

O relógio indica precisamente onze horas e trinta e dois minutos. A julgar pela elegância da peça, julgo que os seus ponteiros já meçam a circunferência do tempo, esse ritmo imaginado pelos humanos, há muito mais décadas do que aquelas que a minha vida contém. As nove horas que se seguem serão, nesta máquina do tempo numerada de um a doze, apenas tic tocs silenciados pela multidão que invade a estação de S.Bento. Mas para mim...para mim serão algumas das melhoras horas jamais pelo mesmo medidas.

Estudei jornalismo na Escola Superior de Comunicação Social e, recentemente, soube que a minha professora, e aclamada profissional Ana Leal, utiliza as reportagens que fiz a propósito da disciplina por ela lecionada como exemplo para os alunos a quem dá aulas hoje em dia. “Podia ter sido boa jornalista, mas escolheu ser actriz”, disse a mesma a meu respeito a uma das suas alunas que por coincidência é também minha amiga. Conto-vos isto com espanto porque na verdade nunca senti que o jornalismo fosse a minha vocação. Neste momento estou sentada naquela que foi um dia a carruagem de imprensa do Comboio Presidencial. Dou por mim a pensar nos jornalistas que aqui foram transportados durante a ditadura, propositadamente sentados em pontas opostas aos membros do partido, silenciados pela censura. Entre mim e mim, questiono-me se não lhes devo essa missão, a de usufruir da liberdade de expressão e exercer a sua profissão com a transparência que não lhes foi permitida...

A voz do Gonçalo pedindo licença para entrar na cabine acorda-me por fim destes pensamentos existencialistas. O Gonçalo, em conjunto com a sua companheira Íris, é o mentor deste projeto. Sentado agora ao meu lado conta-me, de forma apaixonada, a epopeia que foi concretizá-lo. Um comboio do século passado, onde hoje em dia grupos de cerca de 60 pessoas, têm a oportunidade de viajar não só no tempo mas também pelas emblemáticas paisagens do Douro e pelos sabores de Portugal deliciosamente confeccionados pelos melhores chefes do país. Gonçalo confessa que ergueu este projeto a pedido da sua filha mais velha, Nini. E por “mais velha” leia-se: de apenas treze anos de idade. Cheira-me que, tal como o Pai, a Nini será uma mulher da qual ouviremos muito falar.

O discurso cativante e a forma intimista como Gonçalo se dirige a cada um dos passageiros é o reflexo da sua preocupação com o detalhe. Apesar do cenário luxuoso que nos rodeia, o anfitrião faz com que os seus passageiros se sintam em casa, sentando-se por vezes à mesa mesmo com quem não conhece para partilhar um pouco de si e da história do monumento em que viajamos. Enquanto o Comboio Presidencial desvenda ao longo do serpenteado pela paisagem do vale do Douro a beleza do nosso país, Gonçalo, por sua vez, revelará aos que não falam a língua de Camões o que é realmente ser Português. Sim, porque não há nada mais lusitano do que oferecer dois beijos na face como forma de cumprimento, estar à mesa horas sem fim, encontrar intimidade na convivência com um estranho e brindar à continuidade de uma amizade que se acabou de se formar com um copo de vinho de uma casta que certamente o resto do mundo desconhece. Acreditem no que vos digo, os paladares Portugueses são um dos segredos mais bem guardados do mundo.

Na cozinha itinerante desta serpente mecânica, os mestres alquimistas na arte de misturar sabores tecem um delicado manto de aromas, cores e texturas. A movimentação dos empregados que se deslocam no corredor perto da minha cabine indica que o espetáculo está prestes a começar. 

De expetativas e apetite deveras apurados, somos então encaminhados para a mesa onde será servido o almoço. Como que de um bailado se tratasse chegam os empregados com o primeiro prato pousando-o em uníssono diante de nós. A refeição é um labirinto de sabores cuja saída não tenho qualquer pressa em encontrar. 

Ainda não vos disse, mas à minha direita tenho João Wengorovius, um publicitário que aos quarenta e cinco anos de idade decidiu largar tudo e viajar pelo mundo com o intuito que conhecer os melhores chefes da atualidade. Uma aventura que se prolongou durante quatro anos e que está agora eternizada no seu livro We Chefs. O Gonçalo passa por nós e, notando o fascínio com o qual escuto os relatos da sua viagem, sorri, como que a dizer: “sabia que iriam gostar de o conhecer”. 

Este bailado de palatos termina com uma sobremesa de morangos, camomila e leitelho de ovelha servido agora pelo próprio chef,João Rodrigues. Enquanto os meus cinco sentidos o aplaudem de pé levo a última colher à boca rezando para que estes sabores se perpetuem na minha memória gustativa.

The clock indicates precisely eleven hours and thirty-two minutes. Judging by the elegance of the piece, I assume its pointers have been measuring the circumference of time, that rhythm imagined by humans, for many decades more than those my life contains. The next nine hours will be, in this time machine numbered from one to twelve, only tic tocs silenced by the crowd that invades S.Bento's station. But for me ... for me those will be some of the best hours this clock has ever counted. 

I studied journalism in university and recently I learned that my teacher, and acclaimed professional Ana Leal, uses the articles I wrote in the context of the subject taught by her as an example for her students nowadays. "She could have been a good journalist, but she chose to be an actress," she said referring to me to one of her students who coincidentally is also my friend. I am telling you this with more astonishment than pride because I never really felt that journalism was my calling. At this moment I am sitting in what once was the press carriage of the Presidential Train. I think of the journalists who were transported here during the dictatorship, purposely sitting on the opposite end of the train as far away as possible from the members of the party, silenced by censorship. Between me and myself, I wonder if I owe them this mission, the one of enjoying freedom of speech and exercising their profession with the transparency that was not allowed in their time ...

Goncalo's voice requesting permission to enter our booth awakens me at last from these existentialist thoughts. Gonçalo, together with his other half Íris, is the mentor of this project. Sitting now beside me he tells me, in a passionate way, the epic saga that was to bring it to life. A train from the last century where today groups of roughly 60 people have the opportunity to travel not only in time but also through the emblematic landscapes of the Douro valley and the flavours of Portugal deliciously prepared by the best chefs in the country. Gonçalo confesses that he only took on this project at the request of his eldest daughter, Nini. And by "eldest" I mean only thirteen years old. It strikes me that, just like her father, Nini will be a woman of whom we will hear a great deal about.

His captivating speech and the intimate way Gonçalo addresses each passenger is a reflection of his attention to detail. Despite the luxurious scenery that surrounds us, the host makes his guests feel at home, sometimes sitting at the table even with those who he has never met before to share a bit about himself and the history of the monument in which we travel. While the Presidential Train unfurls along the landscape of the Douro Valley the beauty of our country, Gonçalo, on the other hand, will reveal to those who do not speak Camões' language what it really means to be Portuguese. Yes, because there is nothing more Lusitanian than offering two kisses as a form of greeting, sitting at the table for endless hours, finding intimacy in the coexistence with a stranger and toasting to the continuity of a friendship that has just began with a glass of wine from a caste that surely the rest of the world does not know. Believe me, Portuguese palates are one of the best kept secrets in the world.

In the itinerant kitchen of this mechanical serpent, the alchemist masters in the art of mixing flavours weave a delicate mantle of aromas, colours and textures. The constant coming and going of waiters along the corridor near my booth indicates that the show is about to begin.

With voracious expectations and appetite, we are then sent to the table where lunch will be served. As if it were a ballet, the waiters arrive with the first dish, resting it in unison before us. The meal is a maze of flavours whose way out I'm in no rush of finding.

I haven't told you yet, but sat on my right is John Wengorovius, an advertising creative who at forty-five years of age decided to drop everything and travel around the world with the intention of meeting the best chefs on earth. An adventure that lasted for four years and is now eternalized in his book: We Chefs. Gonçalo passes by us and, noticing the fascination with which I listen to João, smiles, as if to say: "I knew you would get along."

This opera of palates ends with a dessert of strawberries, chamomile and sheep buttermilk now served by the chef himself, João Rodrigues. While my five senses applaud him on a standing ovation, I take the last spoon to my mouth praying that these flavours will perpetuate in my gustatory memory.


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“The most important reason for going from one place to another is to see what's in between, and they took great pleasure in doing just that.”

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Peixe do rio, amêndoas e rabanetes / River fish, almond and radishes

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Crustáceos, ervilhas e cebola / Crustaceans, peas and onion

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Salmonete, arroz de salicórnia queimada e berbigões da Foz do Arelho / Mullet, burned salicornia rice and cockles from Foz do Arelho

Salmonete, arroz de salicórnia queimada e berbigões da Foz do Arelho / Mullet, burned salicornia rice and cockles from Foz do Arelho

Arouquesa, "Olho de Perdiz" folhas e tutano / Arouquesa, "Partridge's eye" leaves and marrow

Arouquesa, "Olho de Perdiz" folhas e tutano / Arouquesa, "Partridge's eye" leaves and marrow

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“I like trains. I like their rhythm, and I like the freedom of being suspended between two places, all anxieties of purpose taken care of: for this moment I know where I am going.”

Esta é a Quinta do Vesuvio, um cenário que faz lembrar o filme "Call me By your Name". O comboio parou aqui para ficarmos a conhecer este espaço onde hoje em dia se continua a produzir vinho manualmente. A quinta não está por norma aberta ao público…

Esta é a Quinta do Vesuvio, um cenário que faz lembrar o filme "Call me By your Name". O comboio parou aqui para ficarmos a conhecer este espaço onde hoje em dia se continua a produzir vinho manualmente. A quinta não está por norma aberta ao público, portanto ter a oportunidade de a visitar foi deveras especial. / This is Quinta do Vesuvio, a farm with "Call me By Your Name" vibes. The train stopped here so that we could get to know the place in which wine is still produced manually these days. This farm is usually not open to the public, so having the chance to visit it was pretty special.

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Gonçalo Castelo Branco.

Gonçalo Castelo Branco.

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“...people don’t take trips—trips take people.”

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A ultima vez que o Comboio Presidencial percorreu a via ferroviária num serviço público foi para transportar o corpo do ditador António Salazar aquando da sua morte. Agora o sol cansado vai-se pondo sobre as vinhas enquanto reflito sobre este período histórico que cicatrizou o ADN de todos os portugueses, incluindo o dos que nasceram depois da revolução como é o meu caso. Embalada pela cadência da viagem, e pelo néctar dos deuses nestes vales produzido, debruço-me na janela, fecho os olhos e encontro finalmente o verdadeiro sentido da palavra liberdade...

The last time the Presidential Train traveled the railroad in a public service was to transport the dead body of the dictator Antonio Salazar. Now the tired sun is setting on the vineyards as I reflect on this historical period that has wounded the DNA of all the Portuguese, including those born after the revolution as is my case. Lulled by the cadence of the journey, and by the nectar of the gods in these valleys produced, I lean in the window, close my eyes and finally find the true meaning of the word freedom ...


Dicas/Tips:

  • Vestir roupa confortável e adequada à temperatura do dia pois o comboio não dispõe de aquecimento ou ar condicionado;

  • Como é um dia longo aconselho a dormir no Porto no dia anterior à viagem e no próprio dia. Digamos que depois de tantas provas de vinho o melhor mesmo é evitar qualquer tipo de deslocação extra. Eu recomendo o hotel boutique Palácio Fenizia no Porto sobre o qual farei um blog post em breve. Outra alternativa é ficar numa das várias opções presentes no site Go2oporto, onde encontrarás os hotéis e apartamentos mais pitorescos do Porto;

  • O Comboio Presidencial só está aberto cerca de vinte e poucos dias por ano, por isso convém marcar com antecedência porque os bilhetes tendem a esgotar. É uma experiência cara mas que vale mesmo a pena, é um dia que fica para a vida. 

  • Wear comfortable and weather appropriated clothes because, due to being a historic train, it does not have heating or air conditioning;

  • As it's a very long and overwhelming day I advise you to sleep in Porto the day before the trip and on the day itself. After so much wine tasting traveling anywhere else isn't ideal. I recommend the boutique hotel Palácio Feniziain Porto, about which I'm going to do a blog post very soon. Another alternative is to stay in one of several options available at Go2oporto, where you will find the most picturesque hotels and apartments in Porto;

  • The Presidential Train is only open twenty days a year or so, thus be sure to book ahead because tickets tend to sell out. It's an expensive experience but it's worth every penny, believe me this is one for the bucket list.


* These are my own images and they may not be used for commercial purposes without prior consent. In case of a repost please credit me.